Monte Cascas — o Douro, do xisto à parcela

Uma região só. A que obriga a vinha a crescer em socalcos, na pedra, com o rio lá em baixo e o calor a bater na encosta.

Douro DOC · Xisto · Altitude · Vinhas velhas

Porque é que o Douro é difícil

O xisto não alimenta a vinha; obriga-a. A raiz tem de descer metros até encontrar água, e é essa procura que dá ao vinho a concentração que o Douro tem e poucos sítios conseguem imitar.

A altitude faz o resto. Quanto mais alto, mais frias as noites, mais devagar amadurece a uva — e mais acidez sobra no fim. É por isso que um Douro de cota alta não é o mesmo vinho que um Douro de fundo de vale, mesmo com as mesmas castas.

Os brancos, que ninguém espera

O Douro ficou conhecido pelos tintos e pelo Porto, e é uma injustiça que ainda dura.

Há uma segunda coisa que quase ninguém diz: os nossos brancos não nascem em xisto.

O Douro é xisto, mas não é só xisto. A região é rasgada, em alguns sítios, por filões de granito — e é aí que estão as vinhas destes brancos. O Colheita vem dos 550 metros; o Reserva, dos 700. Granito e altitude, dentro de uma região que o mundo inteiro associa a xisto e a calor.

O granito dá uma tensão que o xisto não dá, e a altitude faz o resto: quanto mais alto, mais frias as noites, mais devagar amadurece a uva, e mais acidez sobra no fim. É por isso que estes brancos são o que são, e é por isso que não se parecem com o resto do Douro.

Viosinho, Gouveio e Códega do Larinho — as três brancas históricas da região — dão vinhos com corpo e mineralidade que resistem à comparação com qualquer branco de montanha da Europa. No Reserva Branco são 60% Viosinho, 30% Gouveio e 10% Códega do Larinho, com bâtonnage e uma textura que não se consegue com fruta só.

Escrevemos sempre Códega do Larinho, com o apelido. No Douro, «Códega» sozinho é o nome local da Síria, que é outra casta — e a confusão entre as duas é frequente.

Se alguma coisa nesta marca merece ser provada sem expectativa, são os brancos.

As gamas

Colheita — o Douro de todos os dias, sem cerimónia. Branco: Códega do Larinho, Gouveio, Viosinho. Tinto: Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Roriz.

Reserva — vinhas velhas, 12 meses de barrica no tinto, bâtonnage no branco. Tinto: 70% Touriga Franca, 20% Touriga Nacional, 10% Tinta Roriz — fruta preta, esteva, café e caramelo, com estrutura firme e final fresco.

Single Vineyard — uma parcela, um vinho. É o topo da marca.

Vinha das Lameiras

Uma parcela de vinha velha com 94 anos, plantada em xisto, com as castas tradicionais do Douro todas misturadas — como se plantava antes de alguém decidir separá-las.

Colheita de 2015. Vinte e quatro meses em barrica. Guarda até 2037.

Amoras, notas vegetais e balsâmicas, aparas de lápis, estrutura firme e corpo cheio.

Últimas garrafas. Não é uma figura de estilo: esta parcela deu o que tinha para dar nesta colheita, não há reposição, e quando a última sair, sai também do catálogo.


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