Cascale — o menos que se pode fazer a um vinho

Três vinhos feitos entre os 650 e os 690 metros de altitude, na Beira Interior, com as decisões todas tomadas na vinha e quase nenhuma na adega.

Beira Interior DOC · Biológico · Fermentação espontânea · Intervenção mínima

Menos de vinte e sete miligramas

Os três vinhos desta marca. Três colheitas, três métodos diferentes, três boletins do Laboratório da CVR do Dão emitidos ao longo de três anos. O mesmo resultado nos três:

Sulfitos livresSulfitos totais
Cascale T · boletim 1973/20< 13 mg/l< 27 mg/l
Síria Curtimenta · boletim 5422/22< 13 mg/l< 27 mg/l
Petroleiro · boletim 2597/23< 13 mg/l< 27 mg/l

O sinal de menor não é um pormenor. O próprio laboratório o define: indica um valor abaixo do limite de quantificação do ensaio. Os vinhos têm menos do que isso — não se sabe quanto, sabe-se que é menos.

Um tinto corrente anda entre os 80 e os 120 mg/l de totais.

E não são vinhos fáceis de manter assim. O T passou dezoito meses em barrica de carvalho francês; a Síria Curtimenta fez doze dias de curtimenta e dez meses em barrica; o Petroleiro esteve oito meses fechado dentro da talha de barro. Três caminhos diferentes, com madeira, trasfegas e oxigénio pelo meio, e o mesmo resultado no fim.

Uma vez é sorte. Três vezes é método.

Não são afirmações nossas. São boletins analíticos do Laboratório da CVR do Dão, acreditado pelo IPAC (L0230) segundo a norma ISO/IEC 17025, com reconhecimento internacional ilac-MRA. Estão disponíveis para quem os quiser ver.

Não dizemos que estes vinhos são sem sulfitos, porque não são — e porque nenhum vinho o é. A fermentação produz sulfitos sozinha. O que fazemos é não acrescentar nada durante o processo, e, quando é preciso, acrescentar o mínimo à porta do engarrafamento. A lei obriga a escrever «contém sulfitos» acima de 10 mg/l, e nós estamos acima. Preferimos dar-lhe o número a dar-lhe um adjectivo.

Oito anos depois

A objecção habitual a um vinho com pouco sulfito é que não dura.

O Cascale T é da colheita de 2018. Está à venda hoje, em 2026, e continua a evoluir — sem defeito, sem oxidação, sem sinal de cansaço. A fruta foi dando lugar a outra coisa, que é o que se espera de um vinho que está a fazer o seu caminho.

Não temos uma teoria sobre isto. Temos garrafas abertas ao longo de oito anos e um vinho que continua de pé.

Quanto tempo mais? Não prometemos números. O que estes vinhos têm a seu favor está no boletim: acidez total alta, pH baixo, extracto seco elevado e açúcar abaixo do limite de quantificação — não há nada na garrafa para alimentar seja o que for.

O que lhe oferecemos é o que já observámos, não o que esperamos observar.

O que não fazemos

Não inoculamos leveduras. A fermentação arranca com as leveduras que vieram da vinha na pele da uva. Se correr mal, perde-se o lote — é por isso que quase ninguém o faz em escala.

Não corrigimos. Nem acidez, nem cor, nem taninos.

Não clarificamos com colas de origem animal.

O que fazemos

Curtimenta. Doze dias de contacto com as películas — no branco, exactamente como se faz num tinto. É de lá que vem a cor âmbar do Síria Curtimenta, e a estrutura tânica que um branco normalmente não tem.

Talha de barro. O Petroleiro é esmagado e fermenta dentro da talha, que depois se fecha por cerca de oito meses. É o método mais antigo que sobreviveu em Portugal, e quase só existe no Alentejo — fazê-lo na Beira Interior não é tradição local, é uma decisão.

Altitude. As vinhas estão a 650 e 690 metros. Sem as noites frias da Beira, nada disto se aguentava de pé.

Terrantez da Beira

Entra no Petroleiro, ao lado de Tinta Roriz, Touriga Nacional, Rufete, Síria e Fonte Cal — brancas e tintas esmagadas juntas, como manda um palhete.

É uma das castas mais raras que trabalhamos. Está num vinho de produção mínima porque é o único sítio onde faz sentido estar.

Biológico, certificado

Agricultura biológica certificada por Kiwa Sativa, organismo de controlo PT-BIO-03, ao abrigo do Regulamento (UE) 2018/848. Operador: Casca Wines S.A., AB0778UT.

Sobre a palavra «natural»

Estes vinhos costumam ser chamados naturais. Não vamos discutir o termo, mas vale dizer o que ele é: «vinho natural» não tem definição legal nem certificação em Portugal ou na União Europeia. Qualquer produtor pode usar a palavra sem prestar contas a ninguém.

Por isso preferimos descrever o método e dar-lhe os números. A conclusão fica do seu lado.

Os vinhos

Síria Curtimenta 2021 — 100% Síria. Âmbar. Frutos secos, canela, compota de figo e erva-doce; tanino aveludado, grande volume de boca, final fresco. Fermentação espontânea, 12 dias de curtimenta, 10 meses em barrica de 225 litros. Vindima manual. 11,5%. Servir 12–14º. Guarda: até 2033.

Petroleiro — Palhete em Talha 2022 — Tinta Roriz, Touriga Nacional, Rufete, Síria, Terrantez da Beira e Fonte Cal. Cor de petróleo. Cereja, resina e argila; taninos de estrutura fina, final fresco e persistente. Esmagado e fermentado em talha de barro, oito meses em talha fechada. 11,6%. Servir 12º. Guarda: até 2033.

T Tinto 2018 — 38% Touriga Nacional, 36% Tinta Roriz, 26% Touriga Franca. Fruta preta e ameixa; encorpado, final persistente. Fermentação espontânea, 12 dias de curtimenta, 18 meses em carvalho francês. 13%. Servir 16º. Guarda: até 2035. Restam cerca de 200 garrafas, e não há colheita seguinte. Quando saírem, o vinho sai do catálogo.


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