Colares — a vinha que a areia salvou
Vinte e poucos hectares de areia entre a Serra de Sintra e o Atlântico. Vinhas por enxertar, com perto de dois séculos. É o que resta de uma das primeiras regiões demarcadas do mundo.
Colares DOC · Pé franco · Chão de areia · Ramisco e Malvasia de Colares
1908
Colares foi demarcada por carta de lei em 1908 — está entre as denominações mais antigas do mundo, numa altura em que quase nenhum país tinha sequer a ideia de proteger a origem de um vinho. Em 1931 abriu a Adega Regional, a cooperativa mais antiga de Portugal, que durante mais de meio século teve a exclusividade de vinificar a região.
Não é uma região pequena que ganhou importância. É uma região importante que ficou pequena.
O que Colares já foi
Em 1938, Colares tinha 1.818 hectares de vinha: 1.690 em chão de areia e 128 em chão rijo. Antes de a Adega Regional abrir, em 1931, a região fazia cerca de 1.800.000 litros por ano.
Hoje são 39,5 hectares de vinha consolidada à volta da Adega Regional — 12,2 em chão de areia e 27,3 em chão rijo. A denominação certifica à volta de 20.000 litros num ano, com variação grande de vindima para vindima. Restam dez produtores.
O chão de areia, que é o que faz Colares ser Colares, é hoje cento e quarenta vezes menor do que era.
Houve um tempo em que este vinho justificava obra pública: a 31 de março de 1904 o elétrico de Sintra chegou a Colares, e em julho do mesmo ano à Praia das Maçãs, em parte para escoar o vinho do Banzão até ao comboio.
A filoxera não foi a causa — aqui, foi o contrário. O que levou Colares foi o século XX: a terra que valia mais para construir do que para plantar, as pessoas que saíram, e um trabalho que ninguém quis herdar porque não pagava. A vinha atravessou as guerras do século de pé. Quase não atravessou a paz que veio a seguir.
Como se planta uma vinha na areia
Não se abre um buraco. Abre-se uma vala e vai-se escavando a areia até encontrar a argila, metros abaixo — às vezes com o viticultor dentro da cova, a trabalhar com a areia a desabar à volta. É aí, no chão firme, que a vara enraíza. Depois repõe-se a areia por cima, aos poucos, ao longo de três ou quatro anos, à medida que a planta sobe.
Foi essa profundidade que salvou Colares. A filoxera, que destruiu a vinha europeia no fim do século XIX e obrigou um continente inteiro a enxertar, não vive em areia e não chega às raízes. Estas videiras nunca foram enxertadas. São pé franco, as mesmas plantas, no mesmo sítio, há quase duzentos anos.
A vinha cresce rente ao chão, deitada, porque de pé o vento do mar partia-a. Poda-se de joelhos. Entre as linhas levantam-se paliçadas de canas secas e muros de pedra solta, refeitos todos os anos, para travar o vento e o sal.
Nada disto é pitoresco. É o preço de fazer vinho a dois quilómetros do Atlântico.
Colares pode voltar a crescer. Repor a areia leva três ou quatro anos, e depois ainda faltam anos até à primeira vindima a sério.
Em destaque em «Gordon Ramsay: Uncharted» — National Geographic

«Este é um dos tesouros mais bem guardados de Portugal.»
Em 2020, Gordon Ramsay veio a Colares gravar o episódio português de «Gordon Ramsay: Uncharted» (National Geographic, temporada 3, episódio 2). Hélder Cunha guiou-o pelas vinhas de pé franco — as mesmas fileiras desta página — e serviu-lhe Ramisco e Malvasia de Colares. Na narração do episódio, Ramsay apresentou-o como «o homem responsável por fazer um dos vinhos mais exclusivos do planeta», e admitiu que a equipa nunca tinha visto vinhas em areia. Estreou em Portugal a 15 de outubro de 2021.
As duas castas
Ramisco. Tinto, cacho pequeno, pele grossa, maturação tardia e taninos que levam anos a abrir. É uma casta que não perdoa pressa: novo é austero, e só com tempo mostra o que tem — ginja madura, especiaria, e uma acidez que o mantém de pé décadas.
Malvasia de Colares. Branco de perfil salino, cera e frutos secos, com corpo e final longo.
Uma nota de nomenclatura, porque a confusão é constante: Malvasia de Colares é uma casta própria, não uma variante das muitas Malvasias que existem na Europa. Escrevemos sempre o nome completo, pela mesma razão por que escrevemos Códega do Larinho com o apelido.
Os nossos são 100% Ramisco e 100% Malvasia de Colares. A lei da região permite lote; nestas duas garrafas não há nenhum.
O que a lei obriga, e o que fazemos
A DOC Colares exige, no tinto, 18 meses em madeira e 6 em garrafa; no branco, 6 e 3.
Nestes dois vinhos são 36 meses em barricas usadas de carvalho francês — usadas de propósito, para dar tempo e oxigénio sem dar sabor a madeira. Depois disso, a garrafa espera. Colares sai tarde porque sair cedo seria desperdiçar a vinha.
As garrafas
É uma colheita de cada vez. Quando esta esgotar, entra a seguinte.
Um vinho raro que se pode abrir. É património vivo, não peça de museu: foi feito para ser bebido, e o respeito que lhe é devido é esse.
Caminhar na vinha
As linhas percorrem-se a pé, com areia pelos tornozelos. A visita começa em Sintra, na Casa do Preto, segue para as vinhas, passa pela Praia da Aguda e pelo Cabo da Roca, e acaba numa prova sentada e comentada, na frente atlântica, com tábua de queijos e enchidos incluída. Entre 3 e 4 horas, 150 € por pessoa. Todo o ano.
A coleção
Colares está no topo dos Hélder Cunha Fine Wines, ao lado das outras parcelas resgatadas uma a uma.


